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Dr. Ricardo Gurgel Rebouças

Enxaqueca e estilo de vida

Quem tem enxaqueca costuma ouvir que a saída é remédio. O remédio tem o seu lugar, mas o número de crises por mês também responde a quatro coisas do dia a dia: exercício, sono, peso e rotina. Nenhuma delas é conselho genérico. Todas têm estudo por trás.

Exercício

Num ensaio clínico com 91 pacientes acompanhados por três meses, três grupos foram comparados: exercício aeróbico (40 minutos, três vezes por semana), técnicas de relaxamento e topiramato, um dos remédios usados para prevenir crises. Os três reduziram as crises na mesma medida, sem diferença entre eles.

Isso não significa abandonar o tratamento com remédio. Significa que o exercício é uma opção real, sobretudo para quem não pode ou não quer tomar remédio todos os dias.

Sono

Insônia e enxaqueca andam juntas, e a relação vai nos dois sentidos. Em pacientes com enxaqueca crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia tirou 6,2 dias de dor por mês a mais do que o grupo de comparação. Enquanto o sono não entra na conta, até o melhor remédio trabalha contra a corrente.

Peso

Um estudo com 30.215 pessoas não encontrou relação entre o peso e o fato de ter enxaqueca. Encontrou uma relação forte com a frequência e a intensidade das crises. Comparado a quem tem peso normal, a chance de passar 10 a 15 dias do mês com dor foi:

  • 1,3 vez maior no sobrepeso (IMC 25 a 29,9);
  • 2,9 vezes maior na obesidade (IMC 30 a 34,9);
  • 5,7 vezes maior na obesidade grave (IMC 35 ou mais).

Rotina

O cérebro com enxaqueca detesta mudança. Na prática:

  • refeições em horário regular, porque pular ou atrasar refeição é um gatilho clássico;
  • dormir e acordar no mesmo horário, inclusive no fim de semana;
  • água ao longo do dia, e não concentrada à noite;
  • para o estresse, respiração, biofeedback e terapia cognitivo-comportamental têm evidência (o que funciona não é simplesmente "relaxar mais");
  • se houver apneia do sono, tratar, porque ela sabota todo o resto.

Quatro ideias que atrasam o diagnóstico

"Minha dor de cabeça é da sinusite." Em 2.991 pessoas com "dor de cabeça de sinusite", 88% preenchiam os critérios de enxaqueca. Nariz entupido e olho lacrimejando podem fazer parte da própria crise.

"Enxaqueca é sempre de um lado só." Até 40% das crises pegam os dois lados da cabeça ou do rosto.

"Depois da menopausa acaba." Cerca de duas em cada três mulheres melhoram. As demais continuam iguais ou pioram.

"Tomar analgésico sempre que dói é inofensivo." Usar analgésico dois ou mais dias por semana, de forma continuada, pode transformar crises ocasionais em dor quase diária.

Quando o estilo de vida não basta

Estilo de vida é a base do tratamento, não o limite dele. Quem tem crises frequentes tem indicação de tratamento preventivo, e a maioria nunca recebeu um: num levantamento com 162.576 pessoas, 38,8% dos que tinham enxaqueca tinham indicação de prevenção e só 13,0% usavam. Hoje existem remédios desenhados especificamente para a enxaqueca (os anticorpos anti-CGRP e os gepantes), além de aparelhos de neuromodulação para quem não pode usar medicação.

Por onde começar

Um diário de um mês vale mais que um exame. Anote o horário de dormir e de acordar, as refeições, o café, o álcool, o ciclo menstrual e cada crise. O padrão aparece, e é ele que define o tratamento.

Referências

  • Varkey E et al. Exercise as migraine prophylaxis: a randomized study using relaxation and topiramate as controls. Cephalalgia. 2011;31(14):1428-38. doi:10.1177/0333102411419681
  • Smitherman TA et al. Cognitive-behavioral therapy for insomnia to reduce chronic migraine: a sequential Bayesian analysis. Headache. 2018;58(7):1052-9. doi:10.1111/head.13313
  • Bigal ME, Liberman JN, Lipton RB. Obesity and migraine: a population study. Neurology. 2006;66(4):545-50. doi:10.1212/01.wnl.0000197218.05284.82
  • Schreiber CP et al. Prevalence of migraine in patients with a history of self-reported or physician-diagnosed "sinus" headache. Arch Intern Med. 2004;164(16):1769-72. doi:10.1001/archinte.164.16.1769
  • Lipton RB et al. Migraine prevalence, disease burden, and the need for preventive therapy. Neurology. 2007;68(5):343-9. doi:10.1212/01.wnl.0000252808.97649.21

Este texto também saiu como carrossel no Instagram, @rgreboucas.